A M A R














Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?


Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.


Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.


Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
Amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

2 comentários:

Docinho on 22 de outubro de 2009 07:45 disse...

No Diário Oficial de hoje, um Projeto do Metrô aposta na poesia para incentivar o hábito da leitura.
Vila Madalena e outras sete estações passarão a exibir textos dos principais poetas da Língua Portuguesa.

Esta poesia de Carlos Drummond de Andrade, está exposta na estação da Vila Madalena.

Muito legal...
Comente você!!!

εїз ViViAn ★ Sbrussi /(",)\ on 26 de outubro de 2009 16:48 disse...

Oieee!!!

seu blog é uma gracinha!

muito legal!

=D

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